BOM SENSO E BOM GOSTOCerta noite, ao embrulhar-me na programação oferecida pelos canais nacionais, deparei-me com uma nova e cativante (tendo em conta o nível de audiências) série. Trata-se de uma série em que, um homem, mais gordo que o Fernando Mendes, e que parece vindo da família do “professor chanfrado”, prepara-se para celebrar casamento com uma mulher – fisicamente nos antípodas do que lhe seria normalmente de esperar –, aparentemente normal. Mudei os canais e passo a explicar o que pensei: estupidificação da televisão. Quando se diz que “em Portugal, ver tv é pior que ir ao wc”, todos compreendemos. Mas agora, até onde vai esse “todos”? Tendo em conta o share dos 4 canais aparece a seguinte compostura:
Prime time de domingo

1º TVI com a maravilhosa série do senhor – eufemisticamente – badalhoco.
2º SIC com mais uma daquelas novelas que preenche o horário das 21h a 0.30h
3º RTP 1 com um programa que testa a cultura geral
4º RTP 2 com um programa que difunde cultura geral.
Por outro lado, atendendo a uma estatística recentemente revelada, apetece-me conjecturar o seguinte, sem, uma obvia, relação rígida:
1 - 70% da população portuguesa tem o 9º ano ou menos, logo a maior parte dos telespectadores
2 - Cerca de ¼ tem o 12º completo – já uma pequena percentagem dos mesmos.
3 – O número minúsculo que sobra são licenciados – quase nada do que representa o share televisivo.
Conclusão: temos uma relação inversamente proporcional – quanto “maior” a exigência cognitiva, menor percentagem de audiência, ou melhor –, quanto menor o esforço intelectual requerido, maior numero de aderentes.
Não quero com isto dizer que “os mais inteligentes são os que assistem à programação da RTP e os menos assistem às da TVI”. Quero é afirmar que me parece que mais importante que o nível de inteligência, é a avidez de saber e conhecer, e essa é uma característica que parece ser escassa na nossa cultura.
Tendo por base que não sou um pseudo-intelectual ou intelectualóide nem conservador nem ainda tão pouco um idealista desmesurado, parece-me, ainda assim, que ninguém pode dizer que os gritos de alerta de muitos são apenas exageros de conservadores desmancha-prazeres, que pregam um idealismo inalcançável. Acontece que o lixo sórdido e sem categoria que se tem assistido na televisão, ultrapassa os limites que tradicionalmente se considerava como “ir longe demais”.
O pior disto tudo é que os pais, acabam por prescindir do mais simples dos padrões: vergonha e educação. Deixam os actuais “donos do controlo remoto” (os filhos) abrirem-se a esta cultura que estupidifica todos nós. Estamos a tornar-nos numa nação de dependentes de reality shows, Playstations e chats virtuais. Mas claramente.
Todos os que me conhecem e conhecem também a expressão “não gosta mete à borda do prato”, sabem que é só subsumir isso ao grupo media capital (tvi, 24h etc…) não é que eu os considere como gente que prescinde de ética jornalística ou adopte programações ridículas (a prova disso é que têm jornais económicos de grande qualidade), o que acontece é eles fazem o que as próprias pessoas pedem, chegando a este ridículo ou qualquer coisa das celebridades, e como em qualquer democracia, ganha a maioria, os outros que se lixem! Hoje a tvi é líder incontestável de audiências porque dá às pessoas aquilo que elas querem e pedem. Tão e só.
Quando eu era um garoto, queria era sair, andar de bicicleta, jogar à bola, estar com os amigos… hoje, vejo nas crianças que vivem perto de mim uma já profunda alteração. Não quero ser estático e ver obstáculos às mudanças, mas agora o mais importante são os morangos com açúcar, futebol é na playstation e se quiserem falar com os amigos é só ir até ao msn. Até onde a cultura “web” será benéfica? Não era disto que eu estava a falar, mas enfim, apeteceu-me. Tudo isto a propósito “do meu odioso marido”.
Deturpando Antero de Quental, há falta de “bom senso e bom gosto”!